RESTAURAÇÃO: A PERPETUAÇÃO DA ARTE
Por Tobias Bonk Machado


No Brasil, o atual momento da construção civil para a área de restauração dá passos lentos, parecendo estagnado, com pouca mão de obra e sem grandes investimentos no campo do patrimônio edificado. Ao percorrermos cidades históricas – e mesmo de configuração urbana recente – não é difícil nos depararmos com importantes edifícios que foram sedes militares, civis ou religiosas que se encontram em ruínas ou em estado de conservação precário. Vale a pena ressaltar aqueles edifícios que não foram valorizados ao ponto de permanecerem até os dias atuais, pois antes de legislações de proteção ou por desrespeito à elas, muitos monumentos já foram alvo de demolições, seja pelo poder privado ou pelo poder público. A cada edifício demolido ou arruinado, parte da história do país se esvai, juntamente com as pedras, com os tijolos, com o madeiramento, com as argamassas, com as pinturas, com os ornatos.

Na primeira carta em que se abrange a temática da restauração no Brasil, escrita pelo Conde André de Melo e Castro no século XVIII, relata-se que os edifícios são livros que falam, sem que seja necessário lê-los. Podemos entender que a história é intrínseca ao edifício, independentemente se ele possui 50 ou 400 anos. Contudo, ali está relatado o momento histórico da evolução da humanidade, presente naquela região, utilizando técnicas e materiais então disponíveis. A partir do edificado é possível captar diretamente, sem pestanejar, o momento evolutivo em que uma comunidade se encontrava em relação a outra localidade no planeta. Em decorrência disso, conhecer-se os povos, os materiais de cada região, as soluções idealizadas à cada situação e mesmo, em um contexto mais atual, entende-se as diferenças entre as sociedades no âmbito da indústria da construção civil. Não se trata de manter um edifício apenas por mantê-lo e tampouco entender que todo projeto, uma vez edificado, não mais poderá ser suprimido, mas, trata-se de entender que edifícios ou conjuntos arquitetônicos significativos, seja por sua forma, por sua história ou por seu contexto cultural não podem nem devem merecer o descaso de um povo, mas, sim, a valorização e o enobrecimento.

Nessa linha, necessário se faz atentar ainda que, para também garantir a perpetuação de um edifício histórico em sua técnica construtiva, não se pode submetê-lo à qualquer intervenção comumente aplicada às construções convencionais. São necessárias técnicas e materiais apropriados especificamente àquela obra a ser restaurada, havendo uma investigação criteriosa de amplo leque de itens projetuais e construtivos, sempre avaliando a história do momento da construção e sob a coordenação de um arquiteto especialista em restauração. Assim, torna-se claro que o universo da restauração é completamente distinto do universo da reforma.

Não se trata de uma intervenção mais cara ou mais barata, mais rápida ou que dure algum tempo a mais. Trata-se da aplicação de uma técnica correta a fim da fruição da informação ali existente às gerações futuras, da valorização da cultura de um povo, de respeito aos antecessores e da qualidade de um trabalho restaurativo específico, coerente com o edifício.

Na foto 1, abaixo, observa-se o tratamento de uma rachadura na cimalha da Igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora da Saúde. Além de cargas distribuídas equivocadamente no frechal e um sistema de fundação precário, a parede não possui uma boa amarração entre fiadas de tijolos.

Na foto 2, abaixo, o frontispício da Catedral de São José dos Pinhais, já restaurada.


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